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04/01/2018

Habilidades ligadas à inteligência emocional e à disposição psicológica para desenvolver as atividades são cada vez mais exigidas pelo mercado

Autor: Ascom - Senac/ AL
Fonte: Ascom - Senac/ AL
 

Ser notável do ponto de vista técnico não garante o sucesso se o comportamento não contribuir. Saber lidar emocionalmente com a pressão tornou-se questão de sobrevivência nas empresas. Afinal, diante da cobrança intensa por resultados e de equipes cada vez menores, o profissional precisa ser capaz de se relacionar bem e de se automotivar.

 

Resiliência, “visão de dono” e equilíbrio emocional são competências que fazem brilhar os olhos dos empregadores. Em entrevista, a Psicóloga Clínica e Organizacional, Fátima Bastos, destaca o peso do comportamento nas organizações e as habilidades interpessoais que influenciam os profissionais a atender às exigências por produtividade.

 

 

O que é mais importante para a carreira atualmente: habilidade técnica ou comportamento? Por quê?

Fátima Bastos – Ambos têm importância. Ninguém pode ser considerado competente se não apresentar conhecimento com o significado de saber. Em tempos de tanta mudança nas organizações e no mercado de trabalho, seria impossível se ocupar qualquer cargo sem que se seja um Trabalhador do Conhecimento, como defende Peter Drucker. “Aquele trabalhador que vem acompanhando a evolução das tecnologias, a informação e o desenvolvimento de novos modelos de negócios.” A habilidade que significa saber fazer, se apresenta como outra característica do trabalhador de hoje, exigindo que ele coloque em prática o conhecimento que tenha adquirido e satisfaça as exigências das empresas modernas e, finalmente, a atitude que significa querer fazer e que determina se o trabalhador vai realizar, ou não, as tarefas exigidas pelo seu cargo, pois, se o trabalhador está insatisfeito, está desmotivado, ele nunca estará disposto a realizar suas tarefas. As atitudes das pessoas precisam ser exigidas, mas também compreendidas como algo que pode se modificar para que ganhe a empresa e as pessoas que precisam trabalhar.

 

Qual o peso do comportamento nas organizações?

Fátima Bastos – Toda e qualquer organização é formada por pessoas e depende do desempenho humano. Quando uma empresa contrata alguém para ocupar um cargo, deseja que essa pessoa faça tudo como ela espera sem levar em consideração que cada pessoa tem seus próprios objetivos, que seu comportamento por ser baseado em suas necessidades, em seus conteúdos e na sua história de vida, o que vai também interferir em seu desempenho. É fato que competências técnicas podem ser facilmente avaliadas em um processo seletivo ou treinadas em um bom programa de capacitação. Ou seja, no conceito de “competência”, o “saber” e o “saber fazer” podem ser desenvolvidos com alguma facilidade, mas o “querer fazer” depende de um componente que está além do poder da empresa, pois depende da vontade do profissional e, por este motivo, leva muito tempo e maior investimento. Por isso, a maioria dos desligamentos ocorre, na verdade, por dificuldades, limitações, ou até desinteresse do profissional. Ou seja, o fator comportamental ainda é predominante no desempenho individual e, consequentemente, coletivo.

 

Então, é verdadade que os profissionais são contratados pela técnica, mas só permanecem nas empresas pelo comportamento?

Fátima Bastos – Quando Daniel Golleman lançou o livro sobre Inteligência Emocional, ele destacou que é inteligente quem é capaz de transformar as emoções vilãs em aliadas. Como nossas emoções estão presentes em nossos comportamentos, é inteligente quem consegue melhorar seu comportamento.  O autor defende que a técnica e o conhecimento podem fazer você ser contratado por uma empresa, porém o que vai determinar se você fará sucesso ou não é o seu comportamento, é a sua capacidade de desenvolver sua Inteligência Emocional. Eu trabalho há quase 20 anos com Psicologia Organizacional e nunca vi, como vejo hoje, tamanho cuidado com o fator comportamento ao se escolher alguém para preencher uma vaga nas empresas. Por isso, tentamos unir a condição técnica à condição comportamental e, assim, reduzir ao máximo a margem de erros na escolha.

 

Quais competências, que fogem do âmbito técnico, são cada vez mais exigidas pelo mercado?

Fátima Bastos – O mercado de trabalho pode ser compreendido como um mecanismo de oferta e procura, constituído pelas empresas e pelas oportunidades de trabalho. É, também, o processo de atrair um conjunto de candidatos para um determinado cargo. Ele exige algumas atitudes, como: ter uma visão positiva, ser uma pessoa de ação, ser honesto, íntegro e transparente, buscar soluções e não culpados, ser comunicativo, estar disposto a aprender e aprender sempre, ser empático, ter paciência e responsabilidade. Não esperamos encontrar tudo isso em uma pessoa, mas, se ela apresentar pelo menos alguns desses aspectos, já estará em destaque.

 

O mercado quer que o profissional enxergue a empresa como se fosse sua. Como conseguir isso frente às insatisfações, como baixos salários e falta de perspectiva de crescimento profissional?

Fátima Bastos – O mercado quer que as pessoas funcionem baseadas no pensamento de que “se melhorar, melhora pra todos. Se o barco afundar, perdemos todos”. A grande questão, para a Psicologia Organizacional, não é apenas levar o funcionário a sentir que precisa mudar. Nosso trabalho é também fazer as empresas perceberem que não adianta tentar mudar comportamentos nos seus colaboradores se sua conduta administrativa não possibilitar o que prega a moderna Gestão de pessoas, ou seja, destruir aquele pensamento empresarial, que já foi muito forte, de que só um lado ganha. Hoje as empresas precisam compreender que, se elas têm objetivos a serem alcançados, as pessoas que nelas trabalham também os têm e que, se esses trabalhadores  sentem que nunca alcançarão os seus, desanimam, se desmotivam e não produzem. Sabemos que essa é questão cultural e, por esse motivo, muito difícil de se modificar, porém, também sabemos que a psicologia tem sua condição, suas ferramentas e suas técnicas para levar o ser humano a refletir e para convencer as pessoas a buscar mudanças. A nossa ciência ainda é muito jovem, mas é madura e insistente o suficiente para realizar grandes coisas. Nunca se conseguiu algo grandioso em pouco tempo e sem insistência.

 

Como as soft skills (habilidades interpessoais) influenciam os profissionais a atender às exigências por produtividade?

Fátima Bastos – O que está “girando o mundo”, atualmente, são os relacionamentos. E aí se encontra um grande problema: além das dificuldades sociais, temos uma baixa condição de educação familiar e formal que destitui a capacidade de compreensão da importância que um ser humano tem para o outro, para que ocorra o seu pleno amadurecimento. Presenciamos famílias completamente desestruturadas em que os membros não estabelecem relações afetivas, o que compromete o despertar para as relações interpessoais e, além disso, temos um sistema educacional que não inclui em seus ensinamentos a necessidade do bom estabelecimento de relações, nem valoriza o aspecto psicológico dos aprendizes, nem coloca o verdadeiro sentido do que seja viver de forma politicamente correta. O pior é que, somado a tudo isso, temos outro grande problema: o completo e indiscriminado acesso e envolvimento das pessoas, nas redes sociais, onde se vive uma relação interpessoal falsa, o que causa problemas nas relações, pois, no ambiente de trabalho, ninguém está disposto a aturar pessoas mal-humoradas, mal resolvidas e emburradas o tempo todo. A moderna administração exige a compreensão de que administrar as emoções é uma prática necessária nos dias atuais.